"Há um momento em que é preciso abandonar as roupas usadas que já têm a forma do nosso corpo e esquecer os caminhos antigos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia - e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." (PESSOA, Fernando)

"Procuro despir-me do que aprendi. Procuro esquecer do modo de lembrar que me ensinaram. E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos. Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras. Desembrulhar-me e ser eu." (PESSOA, Fernando)

31 de ago de 2016

O telefone toca

O telefone toca e há um pedido do outro lado da linha, linha aqui pode-se ler como um simbólico de uma frágil ligação que une dois pontos, o que recebe e o que faz o pedido. Um pedido geralmente emoldurado de angustia, de incertezas, de medos, alinhavado com dor, e tantas outras vezes protegido com aquilo que a pessoa tem no momento, a sua voz.
Uns chegam com a voz firme, outros já tremula, e entre estes dois opostos as inúmeras formas se fazem presente, porque neste mundo não há dois iguais, e cada qual apresenta sua história única. Muito antes deste primeiro contato, a terapia já se deu início, apenas não se sabe.
Tudo o que ocorre em seu entorno, as várias formas de lidar com as situações adversas, as frustrações, o “dar-se conta” da impossibilidade de enfrentamento, são, não necessariamente nesta ordem, aspectos que antecedem e, portanto, norteiam o acesso para a psicoterapia.
Enquanto seres vivos somos um todo, e não apenas partes doloridas. E neste contexto é impossível não acolher a história que vem antes da história da dor. 
Sendo assim, a arte mescla com a vida e possibilita acontecer o encontro além do encontro entre terapeuta e cliente. O encanto com o sagrado que há na vida de outra vida norteia o respeito e o cuidado com que o psicólogo acolhe um outro ser, igual a si.
- Mariane Manske Oechsler - Psicóloga -
Escrito em homenagem ao dia do Psicólogo em agosto de 2015