"Há um momento em que é preciso abandonar as roupas usadas que já têm a forma do nosso corpo e esquecer os caminhos antigos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia - e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." (PESSOA, Fernando)

"Procuro despir-me do que aprendi. Procuro esquecer do modo de lembrar que me ensinaram. E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos. Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras. Desembrulhar-me e ser eu." (PESSOA, Fernando)

19 de out de 2016

O impossível, o deixa de ser

O impossível, o deixa de ser, 
quando a ingenuidade lhe desconhece, 

e rompe as trancas normativas. 
Deixa, portanto de ser impossível, 

quando o silêncio fala, 
a nudez cobre, 

e o amor se recompõe.
Sim, 

os olhos podem chorar das lágrimas até seu vazio, 

porque jamais estancarão a fonte das emoções. 
Os olhos opacos pela dor, 


tornar-se-ão brilhantes ao refletir o sol da esperança...
E os pés descalços como vieram ao mundo, 

sentirão a singeleza das pedras 
a lhes guiar no caminho de janelas, 
por ora fechadas, 

mas de transparência tão bela!
(memórias de Mariane - 10/12/2011)

Momento mágico


Eis que a semente lançada na terra estéril, 
venceu o impossível e brotou em nova vida
Eis que o sentimento embotado,
outrora desconhecido, 
clama pela água da vida
Eis criança poeta, 
por vezes embrutecida em suas próprias dores,
cala em silêncio 
o que em outro momento 
era campo fértil de palavras

Apenas saudades
nunca mais foi como antes, 
foi o momento mágico que me descobriu.

(memórias Mariane - 17/12/2012)

EMBOLADO


O que estava embolado, 
com muita paciência pode voltar ao aspecto original. 
Quantas vezes a nossa vida vira nó, 
dando vontade de passar a tesoura e começar tudo de novo. 
Mas a linha que enlaça os pesos da vida é a mesma que, 
quando cuidada pode dar sustentação e equilíbrio. 


Esta foi uma experiência vivenciada na prática dentro do setting terapêutico.
No primeiro contato do paciente com terapeuta, resulta neste embolar dos pêndulos, não obstante, estava este Ser de igual forma, com sua história "embolada". 
Quanto mais tentava "concertar" sozinho, mais emaranhado ficavam os fios e pêndulos.

Ao olhar o que se apresenta (pêndulos emaranhados), a primeira sensação que emerge é de que seria impossível recuperar a peça. 
Que os fios precisariam ser cortados, e a peça perderia sua originalidade. 
E como o que acontece dentro do setting terapêutico, toca diretamente na relação paciente-terapeuta, foi possível perceber, o quanto esta vida "emaranhada" e já des-confirmada pela Meio, estava frágil e vulnerável. 
Perdendo sua identidade, e numa busca desenfreada de sentir-se aceita, procura atender o que acredita que os outros esperam que faça.
O terapeuta, faz o cuidar. E pacientemente, preserva as linhas, movendo lenta e cuidadosamente as partes. Auxiliando na restauração do que sustenta a identidade. 
Acolhe, aceita, inclui, valida, fortalece.
Assim, terapeuta ao arrumar o objeto de pêndulos, simbolicamente se autoriza a desembolar a vida de seu paciente.

Arte como terapia


"Qualquer linha desenhada 
numa folha de papel, 
a forma 
mais simples modelada 
num pedaço de argila, 
é como uma pedra
arremessada a um poço.
Perturba o repouso,
mobiliza o espaço.
O ver
é a percepção
da ação "
(Rudolf Arnheim)

Quem tenta ajudar uma borboleta


“Quem tenta ajudar uma borboleta 
a sair do casulo, a mata.

Quem tenta ajudar um broto 
a sair da semente, o destrói.

Há certas coisas 
que não podem ser ajudadas.
Tem que acontecer de dentro.”
- Rubem Alves -

A psicoterapia funciona desta forma, acolhe, cuida e acompanha de fora o processo que acontece por dentro, respeitando o tempo e o espaço de cada ser.
Imagem: Mariane Manske-Oechsler 21/ 07/2014

O que acontece na infância...


O que acontece na infância.... 
não fica na infância:

"Quando a criança é humilhada, 
desprezada e não tem 
seus sentimentos respeitados,
tende a acreditar que não é digna de amor
e, passa a omitir seus sentimentos, 
porque não sentem estes, 
como sendo importantes".

Esta des-confirmação do adulto para com a criança, geralmente repercutirá no seu comportamento 
quando for adulto, 
na forma de insegurança e baixa autoestima.

A psicoterapia é um caminho para reconstruir a identidade e elaborar este sentimento.


Os elementos de argila, apresentados no postal acima, servem para materializar a imagem que ocupa a memória emotiva do paciente. 
Neste caso, o paciente adulto, reconstrói uma cena representando um momento de sua infância. 
O paciente escolhe os personagens que lhe fazem sentido, e orienta o posicionamento dos bonecos em argila sobre a mesa.
Observa e elabora as lembranças que evoca, faz contato com as emoções que emergem, e tem a possibilidade de ressignificar o contexto na atualização. 

Novos olhares para a mesma "cena", agora com um outro "fundo" que sustenta.

Hoje, já consegue se apresentar em defesa própria, sem precisar "se calar". Já não é mais aquela criança amedrontada pelo Meio.

Ah, se os pais soubessem, o quanto "podam" seus filhos quando não lhes escutam!

Querido EU


Querido EU...
"Quem me dera todos terem um coração tão cheio de amor e bondade quanto ao meu...
Quem me dera se todos pudessem sentir a mesma paz que sinto comigo
Como é bom poder se olhar e ter a certeza que, você é todos os dias, a melhor forma de você para você mesma
Como me sinto bem, sem depender de aprovações
Como é bom ser EU!"
- Autor anônimo com publicação autorizada -

Eis uma proposta feita com o intuito de reforçar o momento alcançado após muitas dores e resistências quanto a percepção disfuncional de si.
A auto estima fragilizada desencadeia prejuízo social, laboral e emocional. A psicoterapia auxilia na reorganização e reconhecimento do indivíduo como Ser no Mundo.
Sentir-se aceito, incluso, pertencente e confirmado pelo meio (meio se entende, pessoas e ambiente em que convive), é uma necessidade vital do Ser Humano e que deve acontecer nos primeiros anos de vida, quando isto não acontece, o indivíduo tende a ser inseguro, ansioso e deprimido, pois tentará de todas as suas formas conhecidas, agradar ao Meio, a fim de sentir-se visto, e por conseguinte, vivo. 
Facilmente deixa de ser que é, e passa a vestir-se de quem não é. 
Daí a sensação de "estar vivendo uma vida que não é sua".
Portanto, o indivíduo necessita ser confirmado em sua existência, e sentir-se aceito assim com é, constituindo sua identidade, para em seguida, conseguir caminhar com autonomia e confiança, sem ficar dependente de uma confirmação contínua do meio. Aceitar-se em suas limitações (já não precisa mais agradar e ser o melhor em tudo), e valorizar e acreditar em suas potencialidade - no Vir-a-Ser. 
A vida se descoberta para uma gama de cores, ganha possibilidades de conquistas e novos aprendizados.

Impossível não ser tocada pelo encanto de acompanhar a vida florescer. Pacientemente passando pelos ciclos, tal qual as estações do ano, cada qual em seu tempo.
Grata pela confiança e crescimento que meus pacientes concedem.

31 de ago de 2016

O telefone toca

O telefone toca e há um pedido do outro lado da linha, linha aqui pode-se ler como um simbólico de uma frágil ligação que une dois pontos, o que recebe e o que faz o pedido. Um pedido geralmente emoldurado de angustia, de incertezas, de medos, alinhavado com dor, e tantas outras vezes protegido com aquilo que a pessoa tem no momento, a sua voz.
Uns chegam com a voz firme, outros já tremula, e entre estes dois opostos as inúmeras formas se fazem presente, porque neste mundo não há dois iguais, e cada qual apresenta sua história única. Muito antes deste primeiro contato, a terapia já se deu início, apenas não se sabe.
Tudo o que ocorre em seu entorno, as várias formas de lidar com as situações adversas, as frustrações, o “dar-se conta” da impossibilidade de enfrentamento, são, não necessariamente nesta ordem, aspectos que antecedem e, portanto, norteiam o acesso para a psicoterapia.
Enquanto seres vivos somos um todo, e não apenas partes doloridas. E neste contexto é impossível não acolher a história que vem antes da história da dor. 
Sendo assim, a arte mescla com a vida e possibilita acontecer o encontro além do encontro entre terapeuta e cliente. O encanto com o sagrado que há na vida de outra vida norteia o respeito e o cuidado com que o psicólogo acolhe um outro ser, igual a si.
- Mariane Manske Oechsler - Psicóloga -
Escrito em homenagem ao dia do Psicólogo em agosto de 2015

 

26 de abr de 2016

Autor desconhecido



"Se alguém 
se sente incomodado 
com minha presença,
é porque conhece meu brilho,
sabe da minha força,
inveja meu caráter
e teme que o mundo
saiba o quanto sou melhor que ele."
(Autor Desconhecido)

Retalhos - MariAne

"Olhei-te com olhos de amor
és apenas humano, eu sei
mas pelo sentimento expresso
deleito admiração, confesso!"
(Mari Ane)

Retalhos - MariAne

"Não é o OUTRO que procuro
Mas sim o desejo que o OUTRO evoca em mim
Sendo as memórias , lembranças de algo vivido noutro tempo
Desejos misto de sensações embaralhadas entre o que foi vivido e sonhos inalcançáveis
As sensações evocadas, já não são oriundas deste OUTRO,
mas sim do OUTRO que idealizei para mim,
de tal lida que este OUTRO que procuro poderia ser o MEU lado escuro...
Que de tanto temer, delego a responsabilidade à outro sem ele mesmo saber."
(Mari Ane)
 
Há anjos e fadas
... e feras ...
dentro de uma só...
(Mari Ane)
 

Cortar o tempo - Drummond



"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, 
com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente." 
( Carlos Drummond de Andrade)

O grito

Não sei o que está acontecendo comigo, diz a paciente para o psiquiatra.    Ela sabe
Não sei se gosto mesmo da minha namorada, diz um amigo para outro.  Ele sabe.
Não sei se quero continuar com a vida que tenho, pensamos em silêncio.  Sabemos, sim.
Sabemos tudo o que sentimos porque algo dentro de nós grita. Tentamos abafar esse grito com conversas tolas, elucubrações, esoterismo, leituras dinâmicas, namoros virtuais, mas não importa o método que iremos utilizar para procurar uma verdade que se encaixe em nossos planos: será infrutífero. A verdade já está dentro, a verdade se impõe, fala mais alto que nós, ela grita.

Sabemos se amamos ou não alguém, mesmo que esteja escrito que é um amor que não serve, que nos rejeita, um amor que não vai resultar em nada. Costumamos desviar esse amor para outro amor, um amor aceitável, fácil, sereno. Podemos dar todas as provas ao mundo de que não amamos uma pessoa e amamos outra, mas sabemos, lá dentro, quem é que está no controle.

A verdade grita. Provoca febre, salta aos olhos, desenvolve úlceras. Nosso corpo é a casa da verdade, lá de dentro vêm todas as informações que passarão por uma triagem particular: algumas verdades a gente deixa sair, outras a gente aprisiona e finge esquecer. Mas há uma verdade única : ninguém tem dúvida sobre si mesmo.

Podemos passar anos nos dedicando a um emprego sabendo que ele não nos trará recompensa emocional. Podemos conviver com uma pessoa mesmo sabendo que ela não merece confiança. Fazemos essas escolhas por serem as mais sensatas ou práticas, mas nem sempre elas estão de acordo com os gritos de dentro, aquelas vozes que dizem: vá por este caminho, se preferir, mas você nasceu para o caminho oposto. Até mesmo a felicidade, tão propagada, pode ser uma opção contrária ao que intimamente desejamos. Você cumpre o ritual todinho, faz tudo como o esperado, e é feliz, puxa, como é feliz.

E o grito lá dentro: mas você não queria ser feliz, queria viver!
Eu não sei se teria coragem de jogar tudo para o alto.  Sabe.
Eu não sei por que sou assim.   Sabe.
(Martha Medeiros)
Texto para refletir como estamos vivendo