"Há um momento em que é preciso abandonar as roupas usadas que já têm a forma do nosso corpo e esquecer os caminhos antigos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia - e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." (PESSOA, Fernando)

"Procuro despir-me do que aprendi. Procuro esquecer do modo de lembrar que me ensinaram. E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos. Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras. Desembrulhar-me e ser eu." (PESSOA, Fernando)

11 de jan de 2012

Passo a passo



A praia já esta tomada pelos banhistas, e as crianças equipadas com pás e baldes cavam buracos na areia. Observo ao longe uma menina de cabelos claros esvoaçados com a franja caindo aos olhos, pela estrutura física e desenvoltura acredito ter por volta de três anos de idade. Seu castelo de areia, ao lado do guarda-sol da família, vai tomando forma com o auxílio de outras crianças maiores. A dedicação que ela dá a sua empreitada totalmente focada na construção é admirável. Como se nada mais existisse ao seu redor, até o momento em que um adulto caminha com passos fundos ao seu lado. Imediatamente a criança muda o foco de sua atenção, e põe-se de pé, quase cambaleando. 

Seu novo desafio consiste em explorar as marcas de pegadas deixadas há poucos instantes ao seu lado. Pés maiores do que o seu, marcam a areia macia. Cuidadosamente a pequena criança mira acertar seu pé no centro da pegada maior, e emite gritos de alegria quando o seu objetivo é alcançado. Estaticamente parada, fica a contemplar o grande feito, preparando-se para seguir a caminhada vincada na areia. Seus pais ao lado, acreditam na brincadeira e incentivam a atividade, ora segurando sua frágil mãozinha, outrora emitindo palavras positivas. 

Cenas como esta passam despercebidas no dia a dia comum, mas quando instigadas a sua observância mais profunda percebe-se a importância no desenvolvimento da criança. A imitação é parte essencial no formato de aprendizagem que ocorre nesta faixa etária, que além de desenvolver a coordenação motora, também incide positivamente sobre aspectos emocionais. As atitudes de incentivo e as palavras reforçadoras dos pais, nesta pequena brincadeira, são motivadores de confiança e autoconhecimento, fatores que na vida subseqüente incidem sobre a formação da auto-estima com reflexo nos comportamentos.

Portanto, quando o desenvolvimento da criança é percebido como ciclo natural dos seres vivos, possibilita a evidência dos mais velhos como um modelo a ser imitado pelas crianças, numa parceria entre o novo e o velho, caracterizando a renovação, e para seus pais, a perpetuação da própria vida. Facilmente vemos as diferentes gerações sob um mesmo teto, precisando adequar seus conhecimentos num convívio nem sempre harmonioso. O contraste de gerações tende a gerar conflitos de relacionamentos com diversidade de comportamentos, gostos e idéias.  A pensar na dedicação da pequena criança a calçar seu pezinho sobre a pegada maior, dispondo-se a erros e acertos, buscando os limites das linhas vincadas, a pegada maior age como estimulo para o novo ser. Onde um não é melhor do que o outro, pois o novo precisa do velho para sua sobrevivência, e o velho não pode menosprezar o novo na constante atualização. Assim, novas gerações precisam de estímulos e espaço para criar o NOVO, e as gerações maduras acreditar neste novo. Há o que guia, paralelamente enquanto um outro deixa-se guiar. Quando equilibradas, cada geração pode desempenhar as suas funções de modo construtivo e saudável.

O novo sem descartar o velho, deste modo penso sobre a despedida de um ano VELHO que constrói o início de mais um ano NOVO. Ter neste início de ano, a delimitação do aprendizado a nortear os passos que estão por vir.

  VivaBlush
Imagem:  minha filha...
Abraços de cor!

4 comentários:

Everson Russo disse...

Que essa criança alcance seus sonhos,,,siga sempre essas pegadas de amor...beijos de boa semana pra ti.

Pelos caminhos da vida. disse...

Que delicia ser criança, fazer castelos na areia...

Uma boa semana Mari, obrigada pela sua companhia.

beijooo.

Mari disse...

Obrigada pela visita Everson.
Das pegadas, somos todos seguidoroes, há sempre alguem a quem nos espelhamos...

Mari disse...

Querida Ana (Pelos caminhos da vida), a criança permanece dentro de nós, apenas por vezes a deixamos de castigo no quarto escuro...