"Há um momento em que é preciso abandonar as roupas usadas que já têm a forma do nosso corpo e esquecer os caminhos antigos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia - e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." (PESSOA, Fernando)

"Procuro despir-me do que aprendi. Procuro esquecer do modo de lembrar que me ensinaram. E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos. Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras. Desembrulhar-me e ser eu." (PESSOA, Fernando)

2 de jul de 2010

Borbulhar


Inquieta-me no corpo o pulsar descompassado, emergido desta busca obsessiva, única e inflamada. O tremor que toma parte não advém de precipitações climáticas, ele asfixia, entorpece. Acomoda-se ao lamurio angustiado de perda inexpressível, para não dizer insana. O sentimento borbulha na singela esperança de esvair, evaporar. E por não encontrar nenhum escape, invade enlouquecidamente a tudo que rodeia. Bagunçando sadicamente o que outrora já fora organizado, sem pretensão, a não ser da perversa satisfação de maltratar. Punir, por sentir-se punido pela repreensão. Maltratar por sentir-se ignorado. Este sentimento, que já não sei nominá-lo tem a persuasão ao seu combate. Alvoroça e conflitua os pensamentos escalpados. Numa guerra sem fronteiras, profundamente internalizante e inatingível. Não vejo, não ouço, não compreendo... apenas sinto o destroçar do corpo. Fatigabilidade. E jogo sobre tudo o escaldar de um chá quente de camomila... A apatia entra sem cerimônia e faz morada, esvanece o pulsar de um sentimento embotado, calado, negando a própria existência num constante estupor. Acometido de um perjúrio maior, falsa idealização... Caminhando por aí invisível ao próprio ser.

6 comentários:

Helcio Maia disse...

Assim são certos estados de ser, que nos acometem, de quando em vez: invisíveis, sorrateiros, cínicos, frios, ficam de tocaia, agem na escuridão do dia ou da noite, como açoite, mas não duram para sempre, são vulneráveis à esperança, ao amor, à paixão.
Abraços.

Mariane disse...

Sim, Helcio Maia, assim mesmo!

Por que você faz poema? disse...

Caminho invisivelmente
e longe de mim.

Mariane disse...

Longe e perto ao mesmo tempo...
Ei, Por que você faz poemas?, bem vindo!

Helcio Maia disse...

Mariane, linda sua reflexão. Bem e mal, frutos da mesma árvore...sobreviver é menos que viver, mas é tudo, diante da idéia oposta...amor sincero? Não há outra possibilidade de amor.
Viva sua sensibilidade!!

Mariane disse...

Não tem como ser diferente, obrigada pela tuas palavras Helcio Maia.