"Há um momento em que é preciso abandonar as roupas usadas que já têm a forma do nosso corpo e esquecer os caminhos antigos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia - e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." (PESSOA, Fernando)

"Procuro despir-me do que aprendi. Procuro esquecer do modo de lembrar que me ensinaram. E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos. Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras. Desembrulhar-me e ser eu." (PESSOA, Fernando)

20 de jul de 2010

Ter ou Ser

A busca pelo prazer norteia toda a humanidade pelo passar da história. O questionável é qual prazer e a que custo, assim remete a uma introspecção no que tange a fonte de prazer. O que inicialmente permite uma experiência de gozo e satisfação, por ora parece não mais evocar as mesmas sensações; como se esta busca inconstante e infindável jamais se completará. Mas de quê prazer exatamente, falamos? De um prazer egoísta que não se satisfaz e não mede esforços para alcançá-lo (que por si só também tem suas justificativas ou motivações); ou de uma busca pela falta de prazer na vida, preenchimento de um vazio, um sentido, um motivo para viver. O que difere o remédio da droga é a dosagem; nesta perspectiva o que difere o prazer do desprazer, acaso não seria também a dosagem? O excesso ou a falta de prazer podem ser tão maléficos quanto uma dosagem de medicamentos ministrada erroneamente. Sim, perceber o entorno sem deixar-se influenciar pela máquina imediatista do nosso tempo é essencial, mas como perceber se não se é percebido? É possível não compreender a linguagem alheia, e ficar na espera de um prazer que não se completa? Não é de se espantar com o crescente número de adicção, ela oferece uma forma mais palpável de prazer, mesmo não sendo a mais saudável, pelo menos, momentaneamente ela supre uma falta. Por isto não me sinto digna de julgar aqueles que enveredam por caminhos tortuosos do uso de drogas. São tão vítimas do desprazer como qualquer um, mas pagam um preço muito caro por isto. Quando na realidade o prazer não deveria ter preço, nem ser pago. Questiono-me se esta ânsia desenfreada e imediatista de prazer não é resultante da falta do “ser” feliz. Deveria brotar da essência do ser humano como fonte de sobrevivência “dar” e “receber” prazer, de tal forma que bastariam ambientes solidificados com amor suficientemente fortes para suprir a necessidade natural de receber e perceber o prazer. Acaso não seria esta falta de receber amor que causa a distorção entre “ter felicidade” e “ser feliz”? No vazio do “ser” feliz, procura-se preencher com o “ter” felicidade, mesmo que por pequenos instantes. Abordando de forma preventiva as famílias, sob este enfoque, creio que seria possível reverter este quadro, pelo menos reduzindo a magnitude das adicções futuras.

4 comentários:

Ana SS disse...

E assim o comércio, a mídia, a modernidade se constróem! Vendendo promessas de felicidade: se comprar este desodorante, terá mulheres e será feliz, se comprar este iogurte, terá magreza e será feliz, e blablablá.
O problema é que os consumidores (deixam de ser sujeitos de desejo próprio, e passam a ser consumidores atendendo a demanda do outro) acreditam fielmente na idéia que a mídia vende.
E assim, são consumidores de drogas, ou de cheque especial, ou de serviços, etc...
Muito melhor a simplicidade. Mais fácil, mais barata.
Mas já disse a Clarice Lispector, "não se engane: só se consegue a simplicidade através de muito trabalho".
E por aí vão trocentas sessões de análise para darmos conta disso!

Mariane disse...

Ei Ana, e bota análise nesta hitória toda...
Ah Clarice... quanta percepção!

Agradeço teu complemento amiga,

Beijos em todas as direções...

Paulo disse...

Mariane,
Muito obrigado por sua visita ao BAR DOS NAVEGADORES, onde você será sempre bem-vinda... Temos algumas coisas em comum. Em primeiro lugar, a grande amiga Irlene Teixeira, a querida IT, do blog O SOM DO CORAÇÃO, e em segundo lugar o sonho de voar...
Seu texto é excelente!!! Fez-me refletir sobre um ângulo a qual eu ainda não tinha analisado. Acredito que não se pode ter tudo nesta vida, e daí surgem as escolhas. A cada escolha está associada uma renúncia, e por isso é tão difícil e complicado tomar-se decisões importantes na nossa vida. As decisões são complicadas e solitárias. Ninguém pode nos ajudar, pois o que serve para um, não serve para outro, além do que, nós é que teremos que assumir sozinhos as consequências de nossas decisões. O que temos sempre que fazer é colocar as coisas na velha balança, para perdermos sempre o mínimo possível, tendo um saldo positivo de coisas boas. Claro que, sofrimentos irão ocorrer com as renúncias, mas não há crescimento sem dor, e essas adversidades nos tornam melhores pessoas, e mais fortes. O que existe na vida são momentos felizes, e temos que aproveitá-los ao máximo.
Espero que seu sonho de voar se realize logo, pois é um prazer que não tem preço. Ainda tenho outros sonhos como este, e o importante é planejarmos e sairmos atrás deles.
Adorei seu blog, tanto que meu comentário quase virou um post....rsrsrs.
Sou seu seguidor e voltarei mais vezes ao seu espaço.
Beijo e muito prazer.

Mariane disse...

Olá Paulo, que grata visita, e bela reflexão. Sim, voar ainda é um dos desafios que me propus e hei de realizá-lo ainda este ano!
Abraços