"Há um momento em que é preciso abandonar as roupas usadas que já têm a forma do nosso corpo e esquecer os caminhos antigos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia - e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." (PESSOA, Fernando)

"Procuro despir-me do que aprendi. Procuro esquecer do modo de lembrar que me ensinaram. E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos. Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras. Desembrulhar-me e ser eu." (PESSOA, Fernando)

19 de jul de 2010

Minha vez

A sombra da noite paira suave sobre os seres viventes que teimam em deixar seus olhos abertos numa luta contra a natureza a qual foram criados...

Um recado largado sobre a mesa lateja em ser visto e cumprir a missão a que foi designado... “assim que chegar, ligue para...”, exatamente desta maneira, sem restrição de horário... um pedido... uma ordem ??!! Simplesmente palavras que escondem um significado próprio e subjetivo... Num impulso de medo misturado com preocupação impelem a mecânica ação de teclar os números tingidos. Suspense, curiosidade, prontidão... impossível definir o que dominava este momento.

Apelo misturado com acusação, uma mescla de sentimentos e fatos confusos em uma fala sem sentido, nem lógica... Foi preciso alguns fragmentos de minutos para perceber a cilada em que estava sendo enlaçada. Desespero, confusão, ansiedade, medo, incapacidade, impotência, dominância, comodismo, egoísmo, frustração, insegurança... Difícil apontar exatamente o que estava mais latente na fala do interlocutor.

Outrora teria caído ao fundo do maior abismo, com toda a culpa inimaginável que um ser teima em se autoproclamar. O estalo da consciência não se deixou afetar pela emoção momentânea, e permeou o discurso de forma objetiva, devolutiva e pontual. Nem mimos, nem choros; nem aspereza, nem frieza; humano para ambas as partes.

Se a vida se resumisse a atos, daria por encerrada esta divagação. Mas na intersubjetividade do ser reside uma vida própria, que lateja para ser descoberta, aberta. Tal como uma ferida que não cicatriza, e deixa vazar seus líquidos repugnantes para dizer que não findou, não foi cuidada; assim, ousaria dizer que traços mnêmicos deslizam e eclodem na possibilidade de atos falhos exporem suas identidades...

... a caminhada já está lançada, a estrada estreita-se com o avançar da rota apresentando obstáculos tediosos e sutis com o intuito de postergar a chegada no destino almejado, marcas são agregadas neste percurso... mas tudo o que se passa compõe o que poderá um dia ser chamado de vida.

6 comentários:

Zizzi disse...

Percebo que tua vida transborba transformções...
Continue assim que vais longe.

O admirador da Baixinha

Mariane disse...

Tens boa percepção Zizzi, que bom que voltaste aqui.

Fico lisonjeada pela admiração, é muito bom saber que gostas do que escrevo. Lembra-te, as palavras nos acolhem e acalentam nossas emoções em suas diversas formas, depende de como as significamos no momento em que as lemos.

Abraços

Ana SS disse...

Belas palavras.
E é disso que a vida é feita.
Pena que algumas pessoas apenas passam pela vida, sem toda essa beleza que a inquietação nos proporciona.

Mariane disse...

Ana, a vida quando vivenciada em todas as suas instancias, realmente nos proporcionam um crescimento incrivel, ah estas inquietações...
Teu blog tem me encantado cada vez mais.

Beijos linda!

IT disse...

Declamaste!? declaraste?!

"minha vez" "a do outro" de ambos.

Vida que existe, que pulsa e, deseja ser plena.

Mariane disse...

Irlene, declamei e declarei!
Declarei para mim o que eu precisar ouvir, e declamei para o outro o que ha muito deveria ter sido dito.
Mas apenas parte desta caminhada é trajeto concreto, outro tanto ainda esta sendo galgado, eu sei disto!